A predação de ninhos é uma das principais causas do declínio de populações de aves. Diversos fatores influenciam a taxa de predação de ovos, tais como, quantidade de ovos nos ninhos, vegetação ao redor dos ninhos e fase do ciclo da ninhada.
Porém, existem algumas dificuldades em realizar estudos com ninhos naturais, pois estes requerem muito tempo de coleta e não se tem o controle dos tipos de ninhos. Já a utilização de ninhos artificiais, oferece algumas vantagens, como a manipulação e controle dos ninhos, menor tempo de coleta e maior número de ninhos utilizados.
O experimento tem o objetivo de testar a taxa de predação de ninhos artificiais, utilizando ovos de codorna (Coturnix sp.), distribuídos na borda e no interior da mata.
Utilizamos para o estudo, 44 ovos de codorna (Coturnix sp.) sendo introduzidos 2 ovos em cada ninho artificial situado no chão, sendo 9 ninhos localizados no interior da mata e 13 ninhos na borda da mata.
A mata de estudo é a “Matinha” e está inserida na unidade do Coração Eucarístico da PUC Minas. É caracterizada como mata secundária estacional e semidecidual. Com cerca de sete hectares de extensão apresenta características da fauna e flora encontrada na Mata Atlântica e no Cerrado de Minas Gerais, porém vem sofrendo algumas alterações em sua estrutura, conseqüência da urbanização e do mau uso das pessoas que estão ao redor dela.
Na distribuição dos ninhos artificiais no interior da mata, utilizamos uma Trena, em que, a cada 20 metros se obtinha um ponto de referência com auxilio de uma Fita zebrada e assim, com mais 10 metros á dentro colocamos os ninhos artificiais no interior da mata, juntamente com bandeiras numeradas para identificação (Exemplo imagem 1).
Para a distribuição dos ninhos artificiais na borda da mata, colocamos os ninhos 20 metros distantes uns dos outros, também com o auxilio da Trena, Fita zebrada e das bandeiras (Exemplo imagem 2).
Realizamos os experimentos de campo em 2 etapas, onde a primeira etapa foi feita em uma semana após a distribuição dos ninhos artificiais na mata. Foram feitas as análises do que ocorreu, como, predação, presença de provas da predação e tentativas (Exemplo imagem 3).
A segunda etapa foi realizamos duas semanas após a última análise, também avaliando os níveis de predação (Exemplo imagem 5).
RESULTADOS
Dos 9 ninhos artificiais distribuídos no interior da mata, 77,7% foram predados após 21 dias de exposição. Dos 13 ninhos artificiais postos na borda da mata, 44,15% foram predados após 21 dias de exposição, como mostrado nas tabelas 1 e 2.
TABELA 1
Predados | Não predados | |
Interior | 7 | 2 |
Borda | 6 | 7 |
TABELA 2
Tempo 1 | Tempo 2 | |
Interior n=9 | 4 | 7 |
Borda n=13 | 4 | 6 |
As taxas de predação dos ninhos artificiais foram relativamente maiores no interior da mata do que na borda, como mostrado no gráfico a seguir.
Embora tenha ocorrido uma tendência a um aumento da taxa de predação dos ninhos artificiais no interior, não se supõe que a hipótese de que a taxa de predação aumenta de com a diminuição da área. Este mesmo resultado foi encontrado em outros trabalhos (Melo e Marini 1997; Wong et al. 1998; Leite e Marini 1999).
Os resultados obtidos neste trabalho não suportam a hipótese de que a taxa de predação de ninhos é maior na borda.
Os níveis de predação tende a uma variedade de resultados, sendo uma variância até mesmo o local onde estão situados os ninhos. De acordo com Nour et al. (1993) relatou que a predação de ninhos foi relativamente mais importantes em ninhos de arvores no interior de florestas e que ninhos de chão são menos predados no interior que na borda. Outros autores também encontraram respostas similares (Haskell 1995a, Maier & Degraaf 2000, Lindell 2000). Em relação aos ninhos no solo, todos os tipos de ovos tiveram uma alta taxa de predação sugerindo que, os ninhos sofreram uma grande pressão por parte dos predadores.
Devido às marcas de unhas presentes nos ovos é devido à predação de pequenos mamíferos (Bayne & Hobson 1999, Maier & Degraff 2001). No entanto, não temos evidências que pequenos mamíferos são importantes predadores de ninhos no nosso estudo. As cicatrizes encontradas nos ovos podem ser principalmente predação por roedores/lagartos/aves pela localização dos ovos e localização da “Matinha”, no entanto não exclui outros animais como macacos (Callithrix penicillata) e mesopredadores. Ouve também evidências de ovos desaparecidos, deixando estruturas presentes da casca do ovo no local.
A identificação de predadores de ninhos através dos resquícios de predação, como as cascas dos ovos ou pela aparência do ninho foi questionada por alguns autores (Marini & Melo 1998, Larivière 1999). Os restos de ovos de codorna auxiliaram muito pouco na identificação dos predadores, aliás, um mesmo predador pode deixar diferentes vestígios de predação (Marini & Melo 1998). Por outro lado, os ninhos podem ter sido visitados mais de uma vez, por diferentes predadores (Leimgruber et al. 1994). No nosso estudo, os resíduos das cascas dos ovos indicaram que as aves não foram importantes predadoras, pois poucos ovos foram encontrados bicados. Como os experimentos foram realizados no interior da mata, a estrutura da vegetação pode ter influenciado na habilidade das aves em encontrar os ninhos (Bayne & Hobson 1997).
Nosso estudo demonstrou que os ovos mais saborosos são aqueles localizados no interior da mata devido a maior taxa de predação. Pequenas diferenças metodológicas devem ser levadas em consideração, para que não ocorram erros nas interpretações dos resultados sobre os padrões de predação. Portanto, estudos que avaliam o sucesso reprodutivo da avifauna silvestre baseado na predação de ninhos artificiais devem ser analisados com cautela, considerando a utilização de diferentes tipos de ovos e estratos na vegetação.
Camila M. ; Carla M. Aimee ; Carolina C. Coelho ; Lilian S. Souza ; Richard V. Barbosa.


