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O Disfarce das cobras-corais


 

Alguns animais venenosos ou peçonhentos possuem coloração destacada. Esse fenômeno é conhecido como aposematismo. As serpentes apresentam diferentes estratégias defensivas, que são empregadas conforme o ambiente em que vivem. Por exemplo, serpentes que vivem em árvores geralmente são verdes. As cobras corais utilizam a estratégia do aposematismo para afastar predadores orientados visualmente, mas existem também espécies não venenosas que se parecem com as venenosas e podem lucrar dessa semelhança de forma que também afaste os predadores por confundi-los. Esse sistema, no qual uma espécie não venenosa (chamada de mímico) se assemelha a uma venenosa (chamada de modelo), é conhecido como mimetismo. Neste caso espera-se que o nível de predação dos indivíduos mímicos diminua, pois os predadores podem confundir com as espécies venenosas e as evitar. Nosso trabalho vem testar se o mimetismo realmente pode conferir certa proteção para os indivíduos mímicos. A proposta é de uma introdução de modelos de massinha de modelar no padrão de uma coral verdadeira, coral falsa e um grupo controle que seria a cobra verde. A hipótese é que o nível de predação seja menor no modelo de coral verdadeira e coral falsa, justificando o mimetismo dessas serpentes, e no modelo de cobra verde a predação deve ser mais frequente.

Realizamos este experimento na Mata da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Unidade Coração Eucarístico. Confeccionamos 60 serpentes de massa modelável atóxica e pintadas com tinta guache atóxica (marca Acrillex) com 20 cm de comprimento e 1 cm de diâmetro, de quatro padrões diferentes de coloração: 20 verdes, representativo Philodryas viridissimus (fig. 5); 20 Cobras corais verdadeiras representativo de Micrurus annellatus (fig. 6); 10 Cobras corais falsas representativo de Atractus latifrons (fig. 7) e 10 Cobras corais falsas representativo de Liophis breviceps (fig. 8).

 Figura 1. Preparação dos modelos

 
                                             Figura 2. Modelos prontos
                   Figura 3. Mata da PUC - Pontos onde colocamos as serpentes

Colocamos as réplicas em forma de “S” (simulando a posição do corpo de uma serpente em deslocamento), tendo como ponto de partida a imagem da Santa no inicio da trilha. Posicionamos 30 modelos de cobras do lado esquerdo da trila e mais 30 do lado direito de forma que em cada ponto estivesse um modelo de cada: verde, coral verdadeira e coral falsa enumerando cada ponto de um a vinte. Colocamos as cópias em intervalos de 20m, seguindo a trila e 5m dentro da mata, posicionando 3 tipos de cobras em cada intervalo a uma distância de aproximadamente 1m de cada cobra no mesmo ponto, colocando-as no chão e em troncos.

                                                Figura 4. Modelo controle
                                          Figura 5. Modelo coral verdadeira
                                               Figura 6. Modelo coral falsa
                                              Figura 7. Modelo coral falsa

O tempo de duração do experimento foi de duas semanas, vistoriando a cada 72horas e fotografando as cópias que apresentaram marcas de ataque para posterior identificação dos prováveis predadores. Foi considerado como ataques apenas as marcas deixadas por aves e mamíferos, que são os prováveis predadores de serpentes. Esses ataques deixam marcas bem características nos modelos, em forma de “U” ou “V” no caso de bicadas de aves, ou denteada, no caso de mamíferos.

Resultados
            Ao todo expomos 60 réplicas de serpentes de massa de modelar na mata. No primeiro dia de experimento colocamos 30 serpentes e mais 30 depois de 72 horas. Encontramos no total 34 réplicas com marcas de ataque (56,6%). Marcas desconhecidas desconsideramos por não ser possível inferir quais animais foram responsáveis por elas. A frequência de ataques foi maior nas cobras corais verdadeiras e falsas havendo uma preferência de ataque pela parte do meio do corpo.

Tabela. Frequência de ataques por réplica e porcentagem de ataque em relação ao total de réplicas expostas.
Modelos                                                                                        Número de ataques

Modelo de Philodryas viridissimus (Cobra Verde)                                     9 (15%)
Modelo de Micrurus annellatus (Coral Verdadeira)                                  12 (20%)
Modelo de Atractus latifrons (Coral Falsa)                                                  7 (11,6%)
Modelo de Liophis breviceps (Coral Falsa)                                                   6 (10%)
Total                                                                                                                        34


                                              Figura 8. Marcas de predação
                                             Figura 9. Marcas de predação
   
Figura 10. Marcas de predação
                                              Figura 11. Marcas de predação
Diferente do que esperávamos as cobras corais verdadeiras e corais falsas tiveram um maior numero de predação do que as cobras verdes demonstrando que o mimetismo dessa espécie na região da Mata da PUC é inversamente proporcional do que em regiões nativas das espécies, pois vimos que cobras corais (verdadeiras e falsas) possuem pouca camuflagem em folhas e troncos sendo mais visíveis por predadores do que as verdes que tiveram um índice de predação muito menor por se adaptarem melhor ao solo conseguiram-se esconder melhor dos predadores.
            Outra explicação para o fato de os modelos de corais terem sido mais predadas pode ter sido devido algumas aves e mamíferos, podem desconhecer a espécie coral na região, então mesmo as cobras demonstrando uma coloração viva significativo de veneno esse aprendizado não foi passado para os predadores da região provocando assim o alto índice de predação dessas espécies principalmente por mamíferos com marcas bem visíveis e quase nenhuma por aves.
            Finalmente, como a maior parte dos predadores de serpentes são visualmente orientados, o uso de réplicas imóveis poderia levar a uma subestimativa das taxas de ataque. Talvez seja necessário que essas serpentes apresentem mais alguma característica indicativa de perigo, como exibições comportamentais, para serem percebidas como presas reais.             De fato, muitas espécies não venenosas de serpentes exibem comportamentos defensivos que parecem mimetizar espécies venenosas. Dessa forma, a cor das réplicas, provavelmente não é suficiente para que os predadores reconheçam as réplicas como serpentes.

Para saber mais:
RODRIGUES, M.G.; A triangulação da cabeça diminui a chance de predação em serpentes?
GAIARSA, M.P.; Mimetismo em serpentes: modelos mais venenosas conferem maior proteção aos mímicos?
  
Afonso D. Cerqueira; Jéssica B. Oliveira; Kateanne S. Dutra; Luiza de A. S.Fernandes; Sarah G. Biondo

Orientador
Tadeu José de Abreu Guerra